Guerra empurra jovens israelenses à religião e aprofunda a guinada política à direita
Do uso de tefilin nos corredores da escola ao avanço de grupos de estudo da Torá em bairros seculares, a juventude israelense vem reagindo ao trauma de 7 de outubro com mais ritual, mais identidade religiosa e...

Orel Malik virou notícia nacional por causa de um objeto pequeno e antigo. O estudante, a leste de Tel Aviv, montou uma mesa com tefilin em um corredor da escola e passou a convidar colegas para orar entre as aulas. Quando o diretor confiscou o material e desmontou a iniciativa, o episódio saiu do ambiente escolar, foi parar na imprensa, motivou protestos estudantis e chegou ao Knesset, onde Malik depôs num debate sobre a liberdade de usar símbolos e práticas religiosas nas escolas.
Seria fácil tratar a cena como excentricidade juvenil. Não é. Ela concentra, em miniatura, uma mudança bem maior: desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, parte crescente dos jovens israelenses passou a responder ao trauma coletivo com mais religiosidade visível, mais busca de comunidade e uma inclinação política mais nítida à direita.
O detalhe mais importante do caso Malik é que ele não vem de um ambiente ultraortodoxo típico. Criado majoritariamente por uma mãe secular, dificilmente parecia destinado ao proselitismo religioso. Ainda assim, leu a falha do Estado e do Exército em proteger o país naquele 7 de outubro como algo mais do que um colapso de segurança. Para ele, foi uma mensagem espiritual. Essa interpretação, isoladamente, poderia soar idiossincrática. O problema para quem ainda vê Israel pelas lentes do velho sionismo secular é que ela deixou de ser rara.
Uma pesquisa mencionada no material-base indica que cerca de um terço dos israelenses com menos de 25 anos intensificou a observância religiosa nos dois anos seguintes ao ataque. O dado é relevante não apenas pela dimensão quantitativa, mas pelo tipo de motivação que sugere. Muitos jovens não estão se tornando mais religiosos porque descobriram súbita afinidade doutrinária, mas porque passaram a associar ritual, tradição e fé a algo que o Estado aparentemente não conseguiu entregar sozinho: proteção, sentido e pertencimento.
Essa mudança aparece até em Tel Aviv, símbolo histórico do Israel urbano, cosmopolita e secular. Psicólogos relatam adolescentes dizendo que os mísseis podem voltar a qualquer momento e que só Deus oferece segurança verdadeira. Pais trocam mensagens em grupos de WhatsApp para descobrir se os filhos realmente foram assistir a futebol ou se estão em reuniões de oração e estudo da Torá. Em outras palavras, o fenômeno não está restrito às franjas ideológicas do país. Ele avança justamente sobre os espaços onde parecia menos provável.
Também seria errado descrevê-lo como simples expansão do modelo ultraortodoxo clássico. O que cresce entre esses jovens é algo mais fluido e, por isso mesmo, potencialmente mais penetrante. Trata-se de uma religiosidade que combina ritual, identidade tribal, nacionalismo e trauma, sem necessariamente exigir retirada completa da vida moderna. O material-base sugere algo como uma religião “light”: menos ascetismo institucional, mais marcação de pertencimento.
Isso ajuda a explicar o apelo dos grupos de estudo frequentados por Malik e dezenas de outros adolescentes. Nessas aulas, a Torá aparece não só como doutrina, mas como ponto de encontro, sociabilidade e continuidade histórica. Há rabinos, há orações, há interpretação moral, mas também há lanches, conversas e uma atmosfera de comunidade informal. Para jovens que cresceram sob sucessivas guerras, alertas de foguetes e um sentimento difuso de vulnerabilidade, esse ambiente oferece uma arquitetura emocional que o espaço público secular já não consegue oferecer com a mesma força.
Organizações como Chabad e Kesher Yehudi, citadas no texto-base, perceberam isso antes de muita gente e ampliam presença justamente onde antes havia maior resistência. O fenômeno ganhou expressão inclusive estética. Jovens passaram a usar tzitzit de forma mais visível, quase como marca identitária. Músicas religiosas com temática de proteção divina se tornaram populares em festas, rádios e casamentos. O ritual voltou ao cotidiano não como resíduo do passado, mas como afirmação pública de pertencimento.
O deslocamento espiritual, porém, não fica na esfera privada. Ele ajuda a empurrar o centro de gravidade político de Israel ainda mais para a direita. Jovens como Malik afirmam que a esquerda lhes parece antirreligiosa ou incapaz de compreender o tipo de ameaça que o país enfrenta. Nessa leitura, a resposta adequada ao ataque do Hamas, à guerra com o Irã e à pressão de vizinhos e milícias não é moderação, mas coesão identitária, dureza e fé nacional.
Isso desafia uma expectativa bastante difundida fora de Israel: a de que o trauma de 7 de outubro inevitavelmente enfraqueceria o campo político ligado a Benjamin Netanyahu e abriria caminho para um retorno ao centro. O desgaste do governo existe e a indignação com a falha de segurança foi real. Ainda assim, a sociedade que emerge da guerra não é necessariamente mais centrista. Em muitos segmentos, sobretudo entre os mais jovens, ela parece mais inclinada a desconfiar do universalismo liberal e mais aberta a líderes que prometem força, tradição e identidade.
Há um contraste geracional eloquente. Parte dos pais desses adolescentes foi formada na memória do assassinato de Yitzhak Rabin, quando a juventude urbana se mobilizava em nome da paz, do pluralismo e da coexistência. Hoje, muitos desses mesmos adultos observam filhos que enxergam o conflito regional menos como tragédia a ser superada e mais como prova de que Israel precisa se tornar internamente mais coeso, mais religioso e menos permeável a concessões.
Essa mudança cultural já produz efeitos concretos. Ela fortalece apoio a instituições religiosas e a assentamentos judaicos na Cisjordânia, onde cerca de 600 mil colonos já vivem ao lado de aproximadamente 3 milhões de palestinos sob ocupação militar. Ao tornar mais forte a ala nacional-religiosa, o país também reduz o espaço político para qualquer projeto de Estado palestino viável.
O impacto se estende à relação com a diáspora judaica americana. Há cerca de 15 milhões de judeus no mundo, metade em Israel e quase metade nos Estados Unidos. Só que os judeus americanos tendem a ser muito menos devotos e muito mais liberais do que a nova maioria em formação dentro de Israel. À medida que o país adota uma linguagem mais religiosa, mais nacionalista e mais tolerante à ocupação, cresce o risco de erosão do apoio natural que sempre ajudou a sustentá-lo em Washington.
Existe ainda um custo econômico potencial. O setor de tecnologia, motor da economia israelense e responsável por grande parte das exportações, é composto em grande medida por profissionais seculares, cosmopolitas e liberais. O texto-base relata que dezenas de milhares desses profissionais vêm buscando oportunidades no exterior, em cidades como Nova York, Berlim e Toronto, tanto por discordarem da direção política do país quanto por não quererem criar filhos sob um Estado percebido como mais belicoso e menos plural. Se essa fuga ganhar escala, Israel pode enfraquecer exatamente a camada social que mais o conectou ao mundo desenvolvido.
O que dá força emocional a tudo isso são as histórias dos sobreviventes e reféns de 7 de outubro. Elas ocupam o espaço público de Israel e funcionam como testemunhos não apenas de sofrimento, mas de redenção religiosa. A soldado Agam Berger, sequestrada perto da fronteira com Gaza, relata ter adotado práticas kosher e jejuado no Yom Kippur durante o cativeiro. Sua família, até então pouco observante, intensificou rituais enquanto esperava por sua libertação. Já Noa Atias, sobrevivente do festival Nova, conta que prometeu observar o Shabat enquanto se escondia dos terroristas. Hoje, ela e o marido vivem de forma claramente mais religiosa.
Essas narrativas têm peso porque deslocam a religião do plano ideológico para o plano da sobrevivência. Quando ex-reféns, soldados ou sobreviventes dizem que a tradição lhes deu força, deixam implícita uma mensagem poderosa para toda a sociedade: a modernidade secular não bastou. É por isso que a religiosidade crescente parece tão menos artificial do que campanhas partidárias e tão mais resistente do que modas de comportamento.
Israel sempre tratou identidade, segurança e política como temas inseparáveis. O que mudou agora é a intensidade dessa fusão entre os mais jovens. O país fundado por um sionismo deliberadamente secular, quase anti-diaspórico, parece caminhar para uma versão mais explicitamente religiosa de si mesmo. Não necessariamente ultraortodoxa, mas certamente menos liberal, menos confiante na normalidade ocidental e mais convencida de que sobreviver exige não apenas força militar, mas ritual e destino compartilhado.
Quando um estudante como Orel Malik transforma tefilin em questão nacional, o gesto não fala só de religião na escola. Fala de um país cuja geração mais nova aprendeu a interpretar medo como chamado identitário. E, quando isso acontece, a mudança política costuma durar bem mais do que uma guerra.



