Em Pequim, guerra dos EUA contra o Irã parece erro que acelera o declínio americano
Para boa parte de diplomatas, acadêmicos e conselheiros chineses, a ofensiva de Washington no Oriente Médio não projeta força, mas distração. Ela dispersa recursos, reforça a obsessão de Xi Jinping por seguranç...

Em Pequim, a guerra dos Estados Unidos contra o Irã não é lida como demonstração de liderança. É tratada como erro de cálculo de uma potência que já não consegue escolher bem onde gastar energia. A visão dominante no establishment chinês, segundo o material-base, é que Washington está repetindo um padrão perigoso: usar força militar impressionante em um teatro secundário justamente quando a disputa decisiva do século se concentra em outro lugar.
Esse outro lugar é o Leste Asiático. A percepção chinesa é que o verdadeiro eixo da competição global está em tecnologia, cadeias produtivas, rotas marítimas, Taiwan e arquitetura de segurança no Pacífico. Sob essa ótica, cada míssil disparado no Golfo, cada navio deslocado para o Oriente Médio e cada semana gasta em administrar Ormuz representa menos atenção, menos capacidade e menos coerência estratégica para a disputa com a China.
É por isso que a guerra, vendida por alguns defensores como recado de intimidação a Pequim, produz quase o efeito inverso. Na capital chinesa, ela é vista como evidência de uma América impulsiva, sem contenção e sem hierarquia clara de prioridades. O material-base resume bem essa leitura ao dizer que muitos na China interpretam o conflito como grave erro americano e lembram a máxima atribuída a Napoleão: nunca interrompa o inimigo quando ele estiver cometendo um erro.
Há um elemento psicológico importante nessa análise. Para muitos chineses, os Estados Unidos atacam o Irã não porque estão confortáveis com sua posição de poder, mas porque sentem que ela se estreita. Seria o comportamento de uma potência ainda formidável em meios militares, mas menos segura sobre seu propósito. O texto-base sugere essa associação com o velho império britânico do século XIX: capaz de golpes duros, mas cada vez menos convincente em autocontenção.
Se essa leitura estiver correta, o conflito oferece dois ganhos imediatos a Xi Jinping. O primeiro é estratégico. Uma América mais atolada no Oriente Médio fica menos livre para sustentar simultaneamente a dissuasão na Ásia. O segundo é ideológico. A guerra reforça a narrativa doméstica de Xi de que segurança, resiliência e autossuficiência valem mais do que crescimento rápido a qualquer custo.
Pequim vem trabalhando essa agenda há anos. Acumulou uma reserva estratégica de petróleo estimada em cerca de 1,3 bilhão de barris, diversificou a matriz energética com nuclear, solar, eólica e carvão doméstico, e buscou reduzir sua exposição a gargalos controlados pelo Ocidente. Ao mesmo tempo, construiu seus próprios pontos de pressão, de terras raras a componentes industriais e logísticos sensíveis. Quando o Golfo entra em combustão, essa estratégia deixa de parecer excesso de paranoia e passa a soar como seguro racional.
O conflito também alimenta a ambição chinesa de explorar economicamente a crise. Países do Golfo e o próprio Irã, depois da guerra, devem demandar contratos de reconstrução, equipamentos industriais e financiamento. Além disso, a insegurança em torno de energia fóssil e transporte marítimo tende a elevar o apelo de tecnologias verdes chinesas, como equipamentos solares, baterias e soluções de eletrificação nas quais o país já opera com excesso de capacidade.
Há ainda uma dimensão diplomática. Enquanto os Estados Unidos aparecem aos olhos chineses como potência que ora fala em retirada, ora ameaça escalada terrestre, a China tenta se vender como ator frio, previsível e pragmaticamente constante. Isso não significa benevolência. Significa oportunidade de posicionamento. Mesmo um cinismo estável pode parecer atraente ao lado de uma liderança errática.
O texto-base vai além e sugere que Pequim enxerga também espaço para barganhar diretamente com Donald Trump. Se a guerra desgastar Washington, a China imagina ter mais facilidade para negociar redução de tarifas, limites em controles de exportação e, idealmente, algum tipo de linguagem americana mais favorável a uma “unificação pacífica” com Taiwan. É um cenário otimista do ponto de vista chinês, mas coerente com a ideia de que a América enfraquecida se torna mais transacional e menos disciplinada em prioridades de longo prazo.
Essa confiança, porém, vem temperada por ansiedade real. O material-base registra surpresa entre especialistas chineses com o uso americano de inteligência artificial para coordenar operações militares. A guerra, nesse ponto, não serve apenas como prova de impulsividade de Washington. Serve também como demonstração tecnológica. Para um país que pensa Taiwan diariamente, a eficiência operacional americana não passa despercebida.
Há outro desconforto mais profundo. A China prosperou dentro de uma ordem global relativamente estável, com comércio previsível, rotas abertas e um mínimo de regras sustentadas justamente pelos Estados Unidos. Um planeta mais caótico, com maior volatilidade energética, insegurança marítima e impulsividade sistêmica, não é ambiente naturalmente favorável para uma potência cuja legitimidade interna depende de crescimento, emprego e exportações.
Esse talvez seja o principal ponto cego da leitura triunfalista em Pequim. O declínio relativo dos Estados Unidos não produz automaticamente um mundo melhor para a China. Pode produzir um mundo mais desordenado. E a desordem, embora desgaste Washington, também corrói o modelo chinês, que depende fortemente de estabilidade externa para compensar seus próprios problemas internos, como envelhecimento populacional, rigidez partidária e baixa produtividade em vários segmentos.
Além disso, o material-base lembra algo que a análise chinesa costuma subestimar: os Estados Unidos têm capacidade histórica de reinvenção. A política americana é barulhenta, errática e frequentemente desperdiçadora, mas também possui elasticidade institucional notável. Diante de choques tecnológicos e estratégicos, o país já provou mais de uma vez que consegue se reorganizar com velocidade surpreendente. A China, por contraste, parece mais rígida, mais cautelosa e mais limitada pela lógica do próprio partido.
Mesmo assim, no balanço de curto prazo, o cálculo de Pequim faz sentido. Quanto mais tempo a guerra durar, mais recursos americanos serão consumidos longe da Ásia. Quanto mais aliados concluírem que Washington se tornou volátil demais para ser bússola confiável, mais espaço a China terá para vender a si mesma como parceira funcional, ainda que não consiga substituir a arquitetura de segurança que os EUA construíram.
O risco para Pequim é confundir desgaste americano com inevitável ascensão chinesa. O risco para Washington é mais imediato e mais concreto: transformar a guerra contra o Irã em prova viva de que sua principal rival pode esperar, observar e lucrar politicamente com os erros que os próprios Estados Unidos insistem em cometer.


